O cuidado ainda tem gênero?
Por que o wellness ainda parece falar mais com mulheres e como recovery, performance e longevidade estão ajudando a ampliar a relação dos homens com o cuidado. Um olhar sobre comportamento, linguagem e cultura para entender por que o futuro do bem-estar tende a ser cada vez menos sobre gênero e mais sobre ritual.

Durante muito tempo, o universo do bem-estar aprendeu a falar de formas diferentes com homens e mulheres.
Para elas, o cuidado foi apresentado como autocuidado, prevenção, equilíbrio, beleza e bem-estar. Para eles, muitas vezes, esse mesmo cuidado ganhou outros nomes: performance, recuperação, força, sono, longevidade.
Talvez isso ajude a explicar por que ainda vemos uma presença feminina maior em muitos espaços ligados ao wellness.
Não necessariamente porque mulheres se interessam mais por cuidar de si, mas porque foram ensinadas antes a reconhecer esse cuidado como parte da rotina.
Com os homens, a relação costuma ser diferente. Historicamente, existe menor procura masculina por determinados serviços preventivos de saúde. Mas essa distância diminui quando o cuidado entra pelo território da performance e da recuperação.
Nos Estados Unidos, uma pesquisa da Mindbody encontrou uma proporção maior de homens do que mulheres utilizando regularmente serviços de recovery pós-treino, como sauna, banho de gelo, massagem, compressão e crioterapia.
É uma mudança interessante.
O homem que talvez não se identifique imediatamente com a palavra “autocuidado” pode entender perfeitamente a necessidade de dormir melhor, recuperar mais rápido, sentir menos dor ou manter o corpo funcionando por mais tempo.
No fundo, estamos falando de necessidades muito parecidas.
O que muda é a linguagem.
E essa diferença fica ainda mais evidente quando olhamos para outros países.
Na Finlândia, a sauna não pertence ao universo masculino ou feminino. Ela faz parte da cultura. Está integrada à vida cotidiana, aos encontros e à relação das pessoas com o próprio corpo.
Quando um ritual se torna parte da cultura, ele deixa de precisar de justificativa.
No Japão, a expansão recente da cultura de sauna e recovery também mostra outro caminho. Calor, frio, silêncio, arquitetura e comunidade passam a coexistir em experiências que não carregam necessariamente a estética ou os códigos tradicionais de um spa.
O cuidado deixa de ser percebido apenas como indulgência.
Passa a ser ritual.
Talvez essa seja uma das transformações mais importantes do wellness hoje.
Durante anos, boa parte da indústria criou códigos muito específicos para representar bem-estar. A linguagem, as imagens, os ambientes e até a maneira de vender essas experiências também ajudaram a definir quem parecia pertencer àquele universo.
A resposta, porém, não deveria ser criar um wellness mais masculino.
Isso apenas substituiria um estereótipo por outro.
O movimento mais interessante talvez seja justamente retirar o gênero da experiência.
Criar espaços em que alguém possa chegar porque corre. Porque está cansado. Porque quer se recuperar. Porque busca silêncio. Porque quer ter mais mobilidade. Porque quer viver mais e melhor.
Ou simplesmente porque entendeu que cuidar de si também faz parte da vida.
Movimento, recuperação, mobilidade, nutrição, presença e comunidade não pertencem a um gênero.
E talvez a próxima geração de espaços de bem-estar seja justamente aquela que não precise explicar para quem foi criada.
Porque cuidar do corpo, da mente e da maneira como vivemos nunca deveria ter sido uma questão masculina ou feminina.
É uma questão humana.
Talvez o novo wellness comece exatamente aí.